Furtar para Deus

Pode alguém furtar para Deus?
Uma mulher, de idade avançada procura a confissão para pedir orientação, pois alguém disse- lhe que está cometendo pecado grave. O pecado consiste em pegar dinheiro do comércio de seu esposo para dar a Igreja, uma vez que faz isto escondido, mediante a recusa do esposo em colaborar.
Seu pedido de orientação ao padre consiste em saber se comete pecado ou não.
A resposta parece simples: sim é pecado! Mas esta situação acarreta uma série de situações que nos revelam pecados maiores do que tirar dinheiro escondido. A falta de liberdade da esposa que ajuda seu esposo a sustentar a casa e se vê sem a possibilidade de exercer sua responsabilidade para com a Casa de Deus, pagando seu dízimo; o pecado de um esposo que não reconhece os direitos de sua esposa e enfim, o pecado de uma relação que não respeita os direitos e as necessidades individuais, bem como as diferenças entre o casal.
O que dizer a senhora? Que ela está errada? Que deve sonhar e buscar uma relação mais democrática com seu esposo, o que nesta altura de sua vida parece improvável? Poderiamos fazer ainda uma outra pergunta: O que ela furta escondido, também não é seu?
Parece fácil dizer o que é certo ou errado, como faziam os fariseus e mestres da lei, ao qual Jesus denunciou colocar pesado fardo, sobre a vida do povo, ao qual não estavam dispostos a carregar; mas, difícil mesmo, é ser justo.
O padre ao dizer à mulher que sua atitude era errada, seus olhos se encheram d’água. Lagrimas de uma mulher que anseia por liberdade em uma sociedade machista e desigual, onde a questão do gênero está longe de ser resolvida, devido à dureza e ignorância de muitos.
Numa realidade injusta nos parece que a resposta está para além do certo ou errado, mas sim, para a busca da liberdade e autonomia da pessoa.
O padre comovido e cheio de boa intenção orientou à mulher de forma que ela ficasse liberada de seu compromisso com a casa de Deus; o que resultou numa chateação ainda maior para a senhora chorosa, pois sem perceber cometeu o mesmo erro do esposo machista, determinado o que devia fazer.
A mulher disse ao padre: “o meu compromisso é com Deus e não com o senhor, venho aqui para saber se está certo ou se está errado”.
O padre cabisbaixo, quase sem força para falar, afirma novamente que sua atitude está errada.
Após um instante de silêncio ela pede o perdão pelo seu pecado. O padre perdoa e a mulher sai aparentemente tranqüila.
Passado algum tempo, a mulher o encontra e comenta que seu dízimo diminuiu, mas que continua a pagar. O padre, pergunta como está fazendo para se manter fiel, e ela responde: “tenho juntado as latinhas e o que consigo dou com alegria e me sinto em paz; nisto sei que não peco, nem contra meu esposo e nem contra a casa de Deus.
Como dizem os nordestinos "etá mulher arretada"! Falando nisso ela erra nordestina .
Bom, ficou curioso pra saber se o padre da história sou eu? Vai ficar curioso, pois conto o milagre, mas, não conto o santo, rsrs.




1 comentários:

  1. Fernanda TavaresSep 13, 2011 12:54 AM

    Esta história me remete aos furtos "não materiais/patrimoniais", cujo crime a Lei não prevê punição. Será que não furtamos para Deus, quando por exemplo, nos dirigimos à Missa, trocamos o abraço da paz com os irmãos presentes e retornamos ao nosso lar, sem ter sequer desejado Bom Dia ou ter trocado um carinho fraterno com aqueles que despertam sob o mesmo teto que nós?
    (...)
    A confissão, por si só, já denota algum arrependimento e somada à privação dos bens comuns concedidos pelo matrimônio, ao machismo do esposo e ao fato de ser "para Deus", tendemos a tecer opiniões mais brandas sobre a fiel em questão. Errar, sentir culpa é humano e buscar suposto apoio, onde seus erros pareçam ter mais justificativa também, não nego que enxerguei um tanto de conveniência. Como uma mulher infiel se sente menos culpada sendo ouvida por outra adúltera, um caixa que cobra mais do freguês não sente-se mal apoiado pela aprovação do patrão. Assim também TALVEZ tenha sido com ela, ao procurar um PADRE para falar de pecado justificado por ser cometido para Deus.
    Não cabe a mim essa pergunta, tampouco caberia sua resposta, mas fosse somente pela confissão, a senhora penitente teria apenas reconhecido seu pecado em busca de perdão, ao invés de também questionar se o que fazia era certo ou errado?
    Furtar é pecado, vide sétimo mandamento; é crime previsto em Lei, vide Código Penal Brasileiro; é ERRADO, vide nossa consciência. Todavia, considero digna e louvável sua atitude, pois podendo ignorar o alerta que recebeu e continuar na comodidade de seu "erro divino", buscou orientação. Pobre padre, carregou um tanto do fardo machista que reprova para não causar mais sofrimento. Se manteve firme e cumpriu seu dever com retidão, ainda que isso custasse menos ajuda à Igreja.
    O que era importante ela fez, reconheceu o pecado e recebeu o perdão. O mais bonito também, não sucumbiu e encontrou outra forma para colaborar e manter-se em paz.


    ps: É, Pe Benedito. Ficaremos curiosos, mas que coisa! Ou o padre que lhe contou essa história também é bom em minúcias e detalhes, ou também é nordestino, não deixou escapar nem origem da Senhora. Eta, padre arretado! rsrsrs

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